domingo, 19 de fevereiro de 2012

SONHO (para os namorados)

Era já noite e experimentei um sonho
Quase tal qual um sonho de princesa,
Que a magia dos contos nos enseja
Ao despertar a infância de seu sono.

Sobre a cama e sob cobertores,
Um frio atípico e vento à janela
Ainda desperto via clara e bela
Você chegando, meiga de amores .

Veio o calor contraposto ao que sentia
Rapidamente também amolecia,
Vindo a proposito tudo levemente;

Ao leve sol despertei na antemanhã
Ainda o rum sentindo o corpo dormente
Mas sem o açúcar da fria noite vã
Elói Alves

sábado, 11 de fevereiro de 2012

TIO GERBÚLIO E O EVANGELHO DE JUDAS ISCARIOTE

    Tio Gerbúlio tinha o raro privilégio de entrar, quando quisesse, na enorme biblioteca de padre Gelfrido, no subsolo da igreja. Um dia, em que fazia uns reparos nas prateleiras, a pedido do padre, achou um livro estranho. Na capa, trazia os dizeres latinos “Index librorum proibitorum” e sua tradução livre, abaixo: “livro excomungado”.
     Estava amarelecido pelo tempo, algumas folhas estavam soltas. Tio Gerbúlio ia abrindo-o, curioso, quando leu na contra-capa: “EVANGELHO DE JUDAS ISCARIOTE.”
    O prefácio, que ele passou rápido, trazia uma tese do ex-bispo de Laodicéia Germálio Charles Latao, que provava sua veracidade teológica. Depois, mais a frente, parou no título do capítulo 6, que dizia:“JESUS, O JOGO E O BÊBADO”, e foi lendo, ao seu modo, vagaroso:
   “E tendo os dicípulos ido comprar comida, logo começou uma chuvinha fina e triste. E o cheiro de pó subia da terra. Mas como o solo não era firme, o jumento de Tomé, onde Jesus ia montado, atolou no barro. E como não houve meio de desatolá-lo, Jesus foi a uma taverna próxima para pedir ajuda a uns homens que jogavam valendo.
     E eles lhe disseram:
    -Bom mestre, hoje não o seguiremos, pois jogamos a dinheiro.
E tendo Jesus voltado ao jumento atolado, viu um bêbado que vinha atrás para ajudá-lo.
    E como o homem pouco parava de pé, erguendo-se da água e caindo no barro, Jesus tentou inutilmente despedi-lo.
     -Mas eu posso ajudar, insistia o bêbado!
   Depois de muitas tentativas, o jumento saiu da lama e Jesus seguiu montado por um caminho mais firme. Agradecido, ele virou-se ainda para o bêbado e o abençoou com estas palvras:
     -A partir de hoje, maldito será o jogo, mas, a você, amigo, nunca faltará quem pague uma pinguinha.
      E assim se cumpre até o dia de hoje.”

Jão Gerbulius Sobrinho

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

SOBRE O FECHAMENTO DA LIVRARIA CAMÕES E O VALOR DA CULTURA

A livraria Camões está fechando suas portas no Rio de Janeiro após quarenta anos voltada à literatura, à cultura e à arte em geral.
A notícia naturalmente não é boa, mas é uma evidência. Há alguns anos, recebi uma notícia de igual peso: era o fechamento da livraria Duas Cidades, em São Paulo. Ocorreu em setembro de 2006. Corri até a rua Bento Freitas para dar a última olhada, e comprei um livro de Walter Benjamin que guardo comigo, pelo valor da própria obra e como lembrança da livraria, que foi palco de encontro de grandes autores, como Antônio Cândido, Alfredo Bosi, Celso Lafer com leitores ávidos de cultura, que, percentualmente, não são muitos no Brasil.
Não irei abordar a crise econômica que afeta a Europa e todo o mundo de alguma forma. Mas sim o fato de que, infelizemente, não temos em nosso país o gosto pelo saber, pela continuidade da educação pessoal e familiar, numa dedicação voltada à mudança e avanços contínuos. Há uma infeliz inversão que valoriza a mediocridade generalizada e até a idolatra quando ganha espaço e notoriedade orgulhosa. Alíás, a mediocridade tornou-se no mundo atual, não só no Brasil, uma luz na escuridão dos milhões de esquecidos e sem oportunidades. E no Brasil, uma país com mais de cem anos de atraso em educação e com IDH (índice de desenvolvimento humano) entre os piores do mundo, a saída de mergência não é mesmo a cultura e a educação de qualidade e as mudanças pela via da reflexão aguda e do conhecimento apurado. O Brasil é o país do discurso e do bla-bla-bla_ que é até exportado_ e não da cultura como caminho de transformação contínua do homem e do mundo.
Elói Alves

domingo, 15 de janeiro de 2012

AZIRALDO, O AZARADO

Chamam-me Aziraldo e estou agora de férias e em repouso. E meu repouso agora se estenderá para além dos meus dias de folga.
Mas acham que estou sob meus planos? Pois que não. Se querem saber quais eram, já lhes digo: ia à praia, escrever uns sonetos na areia.
Mas eis que choveu no primeiro dia. E choveu a tal ponto que recolhi as malas a um canto e fui à janela ver se passava. Mas as ruas foram se enchendo, mais e mais. No segundo e no terceiro dia pouco mudou. Parava a chuva, vinha a garoa. Cessava o trovão, vinham os raios.
-Que venha o dilúvio, seu São Noé!
Mudei de planos: fui à estante e peguei de um livro. Mas, hahhhh! Pensam que eu perco o pique? Fui atrás de umas redes que ganhei de uns índios quando fui anos atrás à Amazônia. Coisas boas e invejáveis! Todas trançadas artisticamente no cipó. Mas onde andavam? Os cipós ainda tinham pernas.
Não perdi tempo. Fui à cama e puxei do lençol, que me veio sorrindo, malicioso. Oh, terei minha rede, pensei.
Finquei-o entre a janela, dando-lhe um nó cego, e um gancho na parede oposta. Saquei do livrinho, e para que ler..., se eu podia comtemplar a chuva e me vingar dela, superiormente?
Foi o que fiz. A tal ponto que relaxei e balancei.
Vezes e vai!
Vezes e vem!
Já chego ao Japão,
já volto ao Brasil!
Quando meu primo entrou pela sala, lancei-lhe as poesias levemente pelos ares e lhe gritei:
-Oh, Luis, vais de Camôes?
Ele não ia nem foi. Correu ao meu encontro, quando viu que o lençol se rompia, ralando na coluna da parede. E, antes de qualquer coisa, fui eu imediatamente ao chão.
Abrevio, caro amigo e simpática amiga. Escrevo-lhes do hospital. Estou de bruço e enfaixado por toda as costas, que é agora navegada por umas coceiras irritantes que não acabam nunca e que não posso coçar.
Meu primo, pensando em amenizar meus dias sobre essa cama estreita, trouxe-me as poesias de volta; porque, certamente, serviria agora mais a mim que a ele, que ia à praia, já que o sol saiu e já queima forte.
Mas espera! Deixa fazer que estou dormindo, que a enfermeira lá vem com remédio amargo e sopa sem sal.
Elói Alves

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

INVERNO E SAUDADE

Tenho os pés frios e o coração quente,
às vezes ponho umas meias velhas,
Lãs boas feito um sapato
Mas isso é pelas madrugas de inverno triste
No coração tenho sempre uns bons amigos...
E a Tereza, que nem sei por onde anda...
Ah, Tereza, que coisa de sumir assim
Valha-me_ Virgem do Passo Raso
Que além do frio, tenho saudade

Letrófilo

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A CRACOLÂNDIA, EM SÃO PAULO, E A IDADE DAS TREVAS DOS HISTORIADORES

       Os grandes historiadores, pelo menos a maioria deles, gostam de atribuir à, assim chamada, Idade Média, o epíteto de “Idade das Trevas”. Entre os vários defeitos da época, que mostram seu “quadro escuro e obscuro”, estão as sujeiras das ruas da Europa medieval. Tudo bem que é comum atribuir aos europeus a preguiça com o banho frequente, cuja lição mais efetiva no tema obtiveram dos “não-civilizados” que habitavam a América que conquistaram. Mas as maiores imundícies públicas do velho continente surgiram no período da Revolução Industrial, sobretudo na Inglaterra.
      No entando, hoje em dia não ficamos para trás_ até porque é ainda muito sedutor o gosto de ser europeu e civilizado. A cidade de São Paulo está também imunda como a Europa dos historiadores. Mesmo com os carros-pipa que passam diariamente pelas ruas, com seus potentes jatos de água e com os varredores em marcha contínua pelas ruas, o horrendo cheiro de dejetos impregnam o ar da cidade.
      Além disso, a chamada população de rua aumenta mais do que previam os cálculos de Maltus, que via, abismado, o crescimento populacional de seu tempo. Há uma explosão demográfica pelas ruas. Formando-a, há gentes de todos os tipos. Desde os indivíduos isolados, acompanhados de um cachorrinho, a grupos de pessoas que montam barracas para nelas dormirem, passando pelos grupos de bebuns que formam comunidades solidárias em torno de uma garrafa de cachaça. E todos, em plena igualdade iluminista, a pedir dinheiro, a quem quer que pedrestreie, sem por o amor de Deus no meio - não é racional separar Deus dos negócios? - e apenas com a exigência de que a cessão financeira, em espécie, que não é esmola, seja acima de um real, porque, meus amigos, a inflação monetária já está nas ruas, mais forte que o vento previsto na “ marolinha” especulativa do ex-presidente discursero.
      No entanto, o problema não é respirado ainda nas “camadas mais limpas” - seja de Brasília ou de outros palácios mais próximos, e até a recente operação da polícia de São Paulo, na Cracolândia do centro da cidade, apenas fez espalhar e "socializar" pelas ruas centrais os viciados que consumiam lá as suas drogas, concentrados e atemorizando, mas se sabia pelo menos onde o perigo estava.
       -Por obséquio, alguém ai tem luz?
Zé Nefasto Perguntero



 
Leia o primeiro capítulo de As pílulas do Santo Cristo romance de Eloi Alves:
http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/10/as-pilulas-do-santo-cristo-1-capitulo.html

Abaixo, pode-se ler também o prefácio feito pelo escritor e mestre em Literautra Comparada pela FFLCH-USP prof. Edu Moreira: http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/11/prefacio-de-as-pilulas-do-santo-cristo.html
Elói Alves

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

TRAGÉDIA NO NATAL

        Era natal. A cidade reluzia na beleza de todos os seus enfeites. O principal viaduto da cidade fora adornado com luzes e flores natalinas. Do fundo do vale, sob o qual passavam os carros, eregiam-se enormes eucaliptos esplendidamente iluminados, indo competir, em seu ápice, com os postes do charmoso viaduto.
       À frente do moderno edifício da Prefeitura, papai noel agigantado recebia as crianças que subiam nos trenós, onde os pais as fotografavam com as renas. As moças faziam pose para as fotos e os namorados beijavam-se embebidos da paixão e da alegria. Do outro lado do viaduto, o enorme shopping, de frente para o enorme templo da música clássica em cujo lado estava o teatro, explendoroso em sua bela arquitetura barroca, enfeitava a cidade com suas cortinas vermelhas envoltas em fitas verdes, perfiladas em suas infindáveis janelas.
       De repente, ouviu-se um barulho estranho. Algumas pessoas olhavam para baixo do viaduto. Era um infeliz que dera cabo à sua vida. Havia pouco estava absorto, perto da enorme árvore de natal. Uma criança, que corria, tropeçou em suas pernas, frias e duras, sem que o homem desse com nada. Apenas continuou parado.
Estava ali há algum tempo e na verdade andava já em outro mundo.
        Havia saído de casa fazia dias, quando leu no celular da mulher as mensagens do amante. Pegou algumas vezes na faca, mas seu filho estava sempre por perto. Saiu, então, para rua e instalou-se em um hotel no centro. Nesses dias pouco comeu e nada trabalhou. Passara horas no quarto do hotel e às vezes saia à rua, como agora, olhando o nada.
         Da árvore de natal foi caminhando em direção ao shopping. Sempre lento, como se não houvesse se movido, olhando para o infinito de si mesmo. Estacou-se, de repente, no meio do viaduto. Apaupou a mureta e mirou o longe, como se olhasse ao alto, onde a bandeira, hasteada na escuridão, dizia-lhe: "ORDEM E PROGRESSO".
         Logo voltou de si, como se tivesse saído da amargura. Levou a mão direita à camisa amassada e tirou do bolso uma foto. Beijou-a com um beijo gélido: era um menino loiro. Depois subiu a mureta e saltou para encontrar o fundo do vale.
        No mesmo instante, das janelas do shopping, um coral de crianças órfãs encheu a cidade com seu lindo canto natalino
Elói Alves


Leia o primeiro capítulo de As pílulas do Santo Cristo romance de minha autoria:
http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/10/as-pilulas-do-santo-cristo-1-capitulo.html

Abaixo, pode-se ler também o prefácio feito pelo escritor e doutor em Literautra Comparada pela FFLCH-USP Edu Moreira: http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/11/prefacio-de-as-pilulas-do-santo-cristo.html
Adquirir exemplar do livro:http://realcomarte.blogspot.com.br/p/as-pilulas-do-santo-cristo-adquiri.html

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

UM INGLÊS PEDINTE NO CENTRO DE SÃO PAULO

Às oito horas da noite, deste domingo, saí de casa na Líbero Badaró, próximo à Prefeitura, e, atravessando a praça do Patriarca, fui em direção ao Centro Cultural do Banco do Brasil, entrando pela rua da Quitanda.
Domingo à noite a cidade está vazia, geralmente. Na praça, dois ou três homens desmontavam um palco; mais à frente, um mendigo remexia uns lixos. Um homem com sacolas ia vagaroso no meu caminho, firmei os passos e peguei distância. Cresci andando por essas ruas e aprendi suas estratégias. Comecei a conhecê-las entregando lanches e me perdendo por elas. Aos catorze, havia “ascendido” a office boy registrado, numa agência de viagens, cheia de estrangeiros, e continuei a frequentá-las como agora.
Ia sozinho, já quase no cruzamento da rua da Quitanda com a Alvares Penteado, quando uma bicicleta surgiu do nada, vindo em minha direção. Recompus o olhar, o corpo e esperei, sem diminuir o ritmo. Emparelhou-se, logo, guardando a distância que eu ia mantendo.
O homem teria uns quarenta anos, não mais, acho. Estava sujo nas roupas e com os loiros cabelos despenteados na mesma ausência de limpeza. E como parecia um pouco enrolado, com minha cautela ou outra coisa, adiantei-me, firme:
-Pois, não?
-Sou inglês_ disse em português e emendou em sua língua, Do you speak English?
-Bad (mal), respondi e ele se riu um pouco.
Sempre dei essa mesma resposta a todos os ingleses e americanos, mormons e outros, que fui encontrando desde moleque pelas ruas de São Paulo e que me peguntavam se falava inglês. A princípo, por não saber realmente aquele idioma, depois porque percebi que a resposta bastava. E eles sempre riam, como agora este da bicicleta.
Pediu-me dinheiro, em fim, para comprar uma marmitex, e disse-lhe, guardando a distância e com a mesma frieza dos ingleses:
-I don`t have money (No tenho dinheiro).
Ele deu-me o seu “thanks”, e foi em direção à praça da Sé, enfiando-se pela rua XV de Novembro em velocidade tal que logo o perdi.
Este britânico fez-me mergulhar no tempo e ir ter com um outro, que fora casado por uns anos com a dona da agência que referi acima. Teria uns cinquenta anos, hoje, um pouco mais até. Pode ser que apenas se pareçam ambos, como aos meus olhos são iguais os japoneses, mas quem pode duvidar do elevador da vida capitalista?
Elói Alves do Nascimento

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