quinta-feira, 2 de abril de 2020

A CIDADE RECOLHIDA - crônica da janela


A janela que dá para rua é agora a porta para a observação da cidade. Visão obstruída pelo velho e charmoso prédio oposto a pouco mais de quatro metros. O rabicho de imagens, que escoam pelos cantos, mostra uma estação de metrô para cujas escadas ninguém caminha e de onde o eterno brotar de gentes secou.

 Na praça do lado oposto uma pessoa anda vagarosamente sem saber, ou ter, para onde ir, e mais ninguém nos espaços vazios que se formam de ausências, exceto um cachorro que perambula, arrastando os ossos que se mostram mais que seus pelos que se rarefazem.

Dos escorbutos que desanimavam as vidas dos marinheiros nos navios transatlânticos, onde o tempo custava a anunciar as mazelas, à tísica e a apoplexia, a bíblica lepra ou hanseníase, as misérias das guerras fratricidas de que líamos em Hobsbawm silenciaram-nos a nós menos profundamente que os presentes instantes estranhos.

Mas ainda não se sabe, e talvez nunca saberemos, a medida da dor a sentir, nem o teor do amargo da água que resta a beber, o gole de cada um, e que se atenua pela solidariedade dos que se ajudam e da boa medida de razão dos que pensam que não há opção senão a vida.

Lá embaixo, a máscara que se arrasta a passos solitários na avenida monótona invoca a vida; uma mulher que se enverga puxando um carrinho à saída do pequeno mercado, cuja porta aberta quebra a quietude da cidade recolhida, para e espirra. No mesmo instante uma janela fecha-se abaixo da minha. Uma moeda em queda sobre o piso acima tilinta um som sem vida.

Da janela noto o clarão do sol, que se esconde entre os prédios. O dia está quente. Dou as costas à rua e volto-me para a mesa onde vejo a capa verde de Fogo morto, e me lembrei do compromisso com o amigo Caio, com quem estou dividindo a leitura de José Lins, cujo fim estou postergando faz uns três dias.

-Bem, é preciso não se entregar e ser firme como Vitorino Papa-rabo- digo comigo, pegando no livro.
Elói Alves

Texto publicado também em https://www.blogdodg.com.br/post.php?id=842

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Pequenas notas sobre PLUMA, de Ana Prôa


A bela narrativa de Ana Prôa, no livro PLUMA, leva o leitor à experiência da personagem narradora no local de seu refúgio depois de seus insucessos empresarial e familiar. No entanto essa existência num paraíso idílico é, num instante da luz de um raio, transformado na desesperada e velha luta do homem pela vida, onde suas forças, em absoluto isolamento, faz vigorar as primitivas energias do “homem é o lobo do homem” hobbesiano. Resta-lhe, no entanto, uma meiga e entranhável companhia: o seu cachorro.
O belo livro nos lembra a desesperada luta da civilização pelo domínio das forças da natureza; por segurança, medo, desejo de poder e acúmulo de riquezas; domínio do próprio homem. Seja como for, o controle parece sempre enganoso, quando o homem se encontra, então, às avessas, vendo-se como nada além de um pigmeu ante o revés da Natureza.
O personagem central, Edu, repentinamente se vê “enterrado vivo”.  “As chuvas torrenciais, como lâminas, cortaram em fatias as costas. Desceram árvores, pedras[...]. Desceram as casas. Muitas delas, por mais luxuosas que fossem, foram para debaixo do lamaçal que se formou.”
Talvez mais que o encontro da personagem com seu passado de insucessos, dos quais fugia e aos quais as forças das águas o levam - como se refere em epígrafe - a narrativa vislumbre ao leitor a necessidade do retorno a si mesmo.
Essa narrativa leva-nos ao homem, que se fragmenta e se reconstrói, que mira o futuro num espelho que lhe leva ao passado, lembrando, de algum modo, o Eterno retorno, do "Engenho Novo à casa antiga de Matacavalos", de Dom Casmurro, do Eclesiastes, dos Estoicos e do próprio Nietzch.


 Elói Alves


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

A FRALDA DOBRADA



Uma inexplicável associação entre o zumbido de uma mosca à janela do ônibus, que me levava de férias por um sítio montanhoso, a um roído silencioso e intermitente que há tempo também andava de férias, fazendo escavar um curioso feito de tempos atrás, em que um colega de trabalho, admirado por mim, tão estreitamente que já amigos, fez-me inutilmente procurar a razão de um ponto solto.
Na volta para casa, ao fim da tarde, parou ele a uma banca em que se vendiam fraldas; pegou uma, entre várias que estavam sobre a bancada, e examinou-a; esticou o tecido, remexeu-o levemente e concluiu a compra num diálogo amistoso com o comerciante.
Pouco depois, à mesa do café, mais à frente, uma ventania anunciou a proximidade de uma forte chuva de verão; meu amigo pegou o cartão para pagar a conta e pediu que cobrasse também o meu café; a que respondi, agradecendo-o, que já havia pago.
Antes de sairmos, ele examinou o embrulho da fralda, e, abrindo, lentamente desdobrou-a em duas.
-Não era uma? – perguntei.
-Era, e esboçou um pequeno riso que morreu logo.
À porta, o vento, mais forte agora, derrubou uma placa de propaganda; saímos rapidamente, e, separando-nos, cada qual correu ao caminho de sua casa.
Por algum tempo o roído silencioso cozeu-se àquela lembrança, cosendo-me alguma inútil resposta.
Vi-o pagar sempre sem regatear ou questionar; muitas vezes dar esmolas, gorjetas, mandar um sorriso sóbrio aos ingratos; sempre polido, com voz tranquila e movimentos modestos, nada a combinar com a sutil dobra da fralda, que ele ajeitara tão habilmente enquanto dividia uma boa prosa com o homem que lhe vendia e que era ao mesmo tempo  logrado por ele.
-Quando desfralda teu filho? -. Perguntei-lhe certa vez.
-Logo; parece que o pequeno tem pressa-. Disse-me num tom que achei gracioso.
Por esse tempo, não sei se por alguma razão inarticulada, juntei ao léu os verbos desfraldar e defraudar. Não era, então, hábito meu esmiuçar semânticas, mas ocorreu-me logo que eram verbos opostos: um liberava a criança, para escalar o edifício da vida; outro causava dano a outrem, arruinando o que se construía. Ora, porque ele, tantas vezes nobre e correto, sutilmente, e sem outra necessidade, juntara as fraldas, pagando apenas por uma?
Teria achado caro? Nesse caso, certamente compraria de outro. Ou quisera simplesmente impressionar-me com a habilidade de duas mãos leves? Talvez nesse caso o hábil tivesse sido o comerciante, que, ganhando menos, conservava o cliente e abençoava a paz e a saúde que serenavam sobre sua casa.
Não atinei, então, nem agora, com alguma razão, que por acaso haja; meu amigo vai já por caminhos distantes que desconheço (que lhe sejam bons!), e peço a essa mosca zumbidora que deixe livre o meu fim de viagem.
Elói Alves


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