sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A EX-FICANTE, NUM ANO BISSEXTO

À ex-ficante, num ano bissexto
Cara ex-ficante:

      Como havia recebido de sua parte por ocasião de meu aniversário uma lembrança estimável, vi-me na obrigação de lhe retribuir de algum modo.
       Como não me lembrava, ao certo, o dia de seu natalício, tendo certeza apenas de que era pelo mês de fevereiro, deliberei comigo dizendo:
      -Vou felicitá-la hoje, já que é este o último dia do mês.
     Há-de dizer-me certamente, e com suas razões, que não as aceita, pois minhas congratulações já vão lá por demais atrasadas e, portanto em tempo inoportuno. Mas minha réplica, em contrário, lhe mostrará que há também razões frágeis e outras sem razão. Sendo hoje dia 29 de fevereiro, portanto ano bissexto, dia raro e especial por sua eventualidade, toda sua glória e todo o seu peso devem ser repartidos entre os que nascem neste mês. Assim, fazendo bem as contas, esta data, ainda que em pequena parte, também é sua e, logo, estou perfeitamente na ordem do dia com minhas felicitações, independente do dia deste mês em que você aniversaria.
     Minha primeira decisão foi a de devolver-lhe a Angustia. Mas meu grande apego a Graciliano, e também devido a meus sintomas de bibliofilia ou, dependendo do analista, bibliomania, fiquei impedido de fazê-lo, e cumprir assim um ato de ruptura moral ou sócio-cultural.
   Como provavelmente não receberei lembrança alguma de sua parte em meus próximos aniversários, e como é certo também que nem todo ano é bissexto, deixo aqui, neste muito mal escrito texto, minhas felicitações por todos os anos de sua vida, desejando que sua existência seja longa e bela!
    Pensando um pouco, porém, coisa que me é rara, não sei se me expresso bem, votando-lhe a sua vida, ao mesmo tempo, beleza e longevidade, pois há aí mais que uma contradição entre estas palavras. Uma pessoa vivendo muito, talvez a beleza se canse dela e vá procurar outras paragens onde repousar um pouco seu fastio, do mesmo modo que procuramos para nossos olhos ora o mar ora o campo ou outro lugar qualquer. E se indo a beleza, com a vida longa, não há negar que virão ocupar o espaço ocioso outras novas moradoras, quem sabe as rugas, só ou com as estrias, ou as varizes com outras primas suas etc.
   Tudo é escolher.
   Que direi então?
   -Que tenha saúde, muita, e não me queira mal!
   Beijos.

Elói Alves 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A ÚLTIMA MORADA DA SABEDORIA

É bom ter amigos. Principalmente amigos gentis. Eu guardo alguns e algumas em uma lista de coração, digo, de cor, que dá no mesmo, pelo latim, uma língua considerada morta por muitos. Lembrei-me disto a propósito de uma crônica onde um amigo achou algo que nomeou como: Sabedoria. Agradeci a gentileza, que julgo própria daquela alma pura que adoçou-me a vida no período da faculdade, corrido e extenuante. Não lhe pedi mais análises filosóficas ou semânticas, nem literárias. Infelizmente, hoje a Sabedoria não está assim tão à mão ou tão aos olhos - nesta era de miopia de alma.
A Sabedoria era em outro tempo muito encontradiça. Houve quem lhe contou mil casas numa certa cidade antiga, onde repousava. Ali reunia-se com sua irmã mais próxima, que chamava-se Prudência, guardiã da Discrição.
Além de suas casas, vivia nas de seus amigos, onde era querida e sempre bem vinda. Em Somos, viveu um tempo grande com Pitágoras. A pesar de evitar uma ágora onde houvessem sofistas, gostava de deixar-se pelas praças e pelas ruas. Conta dessa época sua amizade com Diógenes – o cínico.
Sua afinidade com tais homens fez surgir os filósofos – que eram os amigos da Sabedoria. Depois surgiram homens que não a conheciam e chamavam a si mesmos de sábios.
Mas os impérios se fortaleceram. A Soberba e Impiedade foram então honradas nos palácios e nas praças, condecoradas com moedas de ouro.
E a Sabedoria exilou-se em lugares longínquos.
Contam uns manuscritos históricos, resgatados por arqueólogos, que nos tempos da idade média, um ermitão que fugira para as grandes florestas da Escócia ali conviveu com ela. Era uma vida impar. Grandes cavaleiros o foram encontrar, perdendo-se pelas florestas e morrendo nelas. Dizem que eram assassinados pela Ganância. É dessa época o desaparecimento de muitos cavaleiros da távola redonda. Mas Ricardo Coração de Leão com seu grande amigo Ivanhoé, quando se refugiaram naquelas florestas, no exílio pela libertação de seu povo, encontraram o ermitão. Este lhes salvou a vida, com abundantes vinhos e carne de javali. Mas a sabedoria _ contou o ermitão aos nobres cavaleiros _ morrera antes de solidão e tristeza.
Meu amigo deixou-me curioso de saber se há por ai ainda alguma pequena notícia da Sabedoria. Quereria saber ao menos onde está sua última casa, para passar por lá, com algumas flores, neste dia de finados.

Elói Alves do Nascimento

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

EUA SOFREM DERROTA NA UNESCO COM ADESÃO DA PALESTINA, QUE SEGUE COMO PAÍS OCUPADO

A UNESCO anunciou hoje a entrada da Palestina nessa agência da ONU, o que significou uma grande derrota para a política externa dos Estados Unidos e para Israel, seu parceiro estratégico na região médio-oriental. Ambos prometeram retaliar essa medida, cortando ajuda financeira à agência. Os EUA têm feito uma dura campanha junto aos menbros da ONU contra à entrada da Palestina nesse organismo internacional, o que arruinaria muito as posições de Israel junto a este país árabe e suas próprias pretensões na área devido ao fortalecimento da Palestina como Estado. Leia análise mais detalhada deste tema na página BRASIL/MUNDO, clicando na parte superior do blog.

Elói Alves doNascimento

TIO GERBÚLIO E O EVANGELHO DE JUDAS ISCARIOTE

     Tio Gerbúlio tinha o raro privilégio de entrar, quando quisesse, na enorme biblioteca de padre Gelfrido, no subsolo da igreja. Um dia, em que fazia uns reparos nas prateleiras, a pedido do padre, achou um livro estranho. Na capa, trazia os dizeres latinos “Index librorum proibitorum” e sua tradução livre, abaixo: “livro excomungado”.
     Estava amarelecido pelo tempo, algumas folhas estavam soltas. Tio Gerbúlio ia abrindo-o, curioso, quando leu na contra-capa: “EVANGELHO DE JUDAS ISCARIOTE.”
     O prefácio, que ele passou rápido, trazia uma tese do ex-bispo de Laodicéia Germálio Charles Latao, que provava sua veracidade teológica. Depois, mais a frente, parou no título do capítulo 6, que dizia:“JESUS, O JOGO E O BÊBADO”, e foi lendo, ao seu modo, vagaroso:
    “E tendo os dicípulos ido comprar comida, logo começou uma chuvinha fina e triste. E o cheiro de pó subia da terra. Mas como o solo não era firme, o jumento de Tomé, onde Jesus ia montado, atolou no barro. E como não houve meio de desatolá-lo, Jesus foi a uma taverna próxima para pedir ajuda a uns homens que jogavam valendo.
      E eles lhe disseram:
   -Bom mestre, hoje não o seguiremos, pois jogamos a dinheiro.
E tendo Jesus voltado ao jumento atolado, viu um bêbado que vinha atrás para ajudá-lo.
     E como o homem pouco parava de pé, erguendo-se da água e caindo no barro, Jesus tentou inutilmente despedi-lo.
      -Mas eu posso ajudar, insistia o bêbado!
    Depois de muitas tentativas, o jumento saiu da lama e Jesus seguiu montado por um caminho mais firme. Agradecido, ele virou-se ainda para o bêbado e o abençoou com estas palvras:
     -A partir de hoje, maldito será o jogo, mas, a você, amigo, nunca faltará quem pague uma pinguinha.
      E assim se cumpre até o dia de hoje.”

Jão Gerbulius Sobrinho

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