segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Direito e Literatura no Brasil - entrevista a Thiago Martins, Ramo Jurídico


Entrevista a Thiago Martins -  Ramo Jurídico



Para esta segunda entrevista, convidei uma pessoa que tem exercido um papel fundamental em meu aprendizado. Graças ao prof. Elói, tive a oportunidade de entender um pouco mais sobre a língua portuguesa e, consequentemente, isto aprimorou consideravelmente o meu desenvolvimento.
Além de professor, Elói Alves é consultor linguístico, orientador de comunicação verbal, revisor e escritor. Desta forma, a nossa entrevista abrangeu desde a Academia Brasileira de Letras - que contém a participação de inúmeros juristas- até a sua experiência no âmbito literário. Confira a entrevista:

1 – Professor, o que é a Academia Brasileira de Letras? E qual a importância desta instituição?
Elói Alves — A ABL, fundada no Rio de Janeiro no fim do século XIX, é uma instituição composta por quarenta membros, em grande medida, escritores cujas obras são referência, tanto no aspecto literário e cultural como, ainda, no sentido de formação e preservação das letras nacionais. No entanto, na medida em que, para sua composição, reúne, como disse, referências literárias, torna-se objeto da crítica por vertentes renovadoras, de que, aliás, não pode fugir se quiser valorizar a literatura, sob o olhar artístico e, ao mesmo tempo, sua matéria básica: a língua, sempre resistente a moldes. Outras críticas, às vezes muito gerais, apontam o formalismo, o caráter político e a falta de critério na escolha de seus “imortais”, título não raramente causador de ironias, uma vez que, para nomeação de novo membro, deve-se esperar que algum imortal morra. Desse modo, sua importância é passiva de relativização, nem tanto a Deus, nem tanto a Mefisto, para lembrar a representação do mal na mitologia alemã, universalizada no Fausto, sobre o qual já conversamos, Caro Thiago.

2- Entre os membros da Academia Brasileira de Letras poderíamos listar nomes de inúmeros juristas, exemplo: Ruy Barbosa, Pontes de Miranda, Clóvis Beviláqua, Miguel Reale, Evaristo de Moraes Filho, dentre outros. De que forma o senhor enxerga isto e como o direito pode enriquecer a literatura brasileira?

Elói Alves — Há dois aspectos neste ponto, ligados ao tipo de formação, subjetivo, no que toca ao gosto pelo saber de determinados juristas, para além do aspecto objetivo da Ciência Jurídica; o outro elemento, histórico, constata-se na estrutura social brasileira, no oficialismo, por assim dizer, verificada na estrutura acadêmica nacional até as primeiras décadas do século XX; os escritores mais conhecidos, não os melhores, necessariamente, vinham dos Cursos de Direito ou da Medicina; Monteiro Lobato e o autor de A moreninha são, respectivamente, um exemplo. Os cursos de Literatura e outras faculdades ligadas às artes surgiram, digamos, tardiamente, nessa linha histórica; lembrando que, depois desse divisor, médicos, como Scliar, e juristas, como Teotônio Negrão, se destacaram na Literatura nacional e que, muito antes disso, Machado de Assis se tornou expoente e “presidente perpétuo” da ABL, sem formação acadêmica, no entanto, e que Paulo Otran, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, passou logo ao teatro, ali ficando até a morte.
A confluência é fator que se dá, desse modo, por dados históricos; em outro plano, também importante, o fator científico aparece na base sociológica e humana do Direito, negando, de certo modo, aqui, a ideia de ciência pura, de Hans Kelsen.

3 – O professor incluiria algum nome nessa lista? Pode ser jurista ou não.
Elói Alves — Ler os contemporâneos é tarefa importante para o literato, e não apenas os que a Academia e o tempo têm consagrado; nesse sentido gostaria de lembrar o nome do escritor Arthur Del Guércio Neto, destacado nome do Direito Notarial cuja carreira como cronista literário tenho acompanhado com gosto. Li também narrativas suas, Thiago, com o prazer de ver jovens talentosos dedicando-se à ciência e à arte.

4 – Fugindo um pouco do campo do direito, faremos uma espécie de bate e volta, com perguntas breves.

a)   Um escritor?

Elói Alves — Machado de Assis; se me permitir um estrangeiro, entre tantos: Leskov
b)   Uma obra?

Elói Alves — Cem anos de solidão

c) Uma frase?

Elói Alves — “Trouxeste a chave?”, do poema Procura da Poesia, do Mestre Drummond


c)   Um objetivo?

Elói Alves — Ler com prazer e compartilhar, sempre;

e) E, por fim, uma lembrança sua como escritor?

Elói Alves — Há algumas: os encontros com Colegas e Leitores, como o Adorável Poeta angolano Lopito Feijó, cuja bela arte me encanta e cuja amizade simples e sábia adocica; Iraci, contadora de histórias a pacientes hospitalizados, que, de atenta leitora, tornou-se também grande Amiga; leitores cujo olhar penetrante tive a alegria de conhecer por meio de comentários aos textos; fico feliz com o tempo que joga luz nova sobre textos mais antigos, como “As pílulas...” e “O Olhar de lanceta”, citados e retomados por outros autores; o que faz bem à memória recompensa a vida.

5 – Agora a última pergunta, quais obras o senhor já publicou? Existe alguma preferida? Se sim, por qual motivo?

Elói Alves — Sobre a preferência a meus escritos, procuro entender esta questão, com que já me deparei algumas vezes, sob a visão do leitor literário; ao leitor empático Às Pílulas, percebo o gosto pela densidade e amplitude da obra, que não se pode separar da subjetividade da experiência da leitura; assim também dos outros livros, com marcas de construção literária e estilos bem diferentes; de modo que ao leitor cabe as facilidades de escolher a obra que mais lhe agrada no acervo de determinado autor; ao autor, digo no meu caso, a tarefa é mais complexa, sobretudo quando a composição estética é igualmente densa em composições textuais tão distintas como são As pílulas, Sob um céu cinzento ou Olhar de lanceta, sem falar das narrativas curtas; de maneiras que a escolha é deixada ao leitor, que, aliás, completa a obra com sua subjetividade e sua interpretação.

Voltando à pergunta, dos vinte anos adiante, escrevi coisas que ficaram dispersas; inclusive um tratado teológico, que assinei em conjunto com meu maior Mestre, saudoso Natanael L. França; quando terminei o Curso de Letras, tive mais tempo para me dedicar às publicações literárias; em 2012, lancei o romance realista As pílulas do santo Cristo, nos anos seguintes vieram os Contos humanos, Sob um céu cinzento, Histórias do tio Gerbúlio, além de diversas antologias, coautorias, textos críticos, artigos, prefácios, apresentação e posfácios a livros de autores dos quais me orgulho, como o maravilhoso escritor Edu Moreira, e a organização de Contos Paulistanos, para o Instituto Letrófilo, cujo vol. II espero que saia logo.

Acho importante lembrar a atividade de revisor, por meio da qual tive o prazer de ler obras de importantes artistas e juristas, entre os quais o Professor Dr. Thales Ferri Schoedl e Professor Dr. Arthur Del Guércio Neto, que me fez honroso convite para prefaciá-lo em Causos e Contos Notariais, do qual a segunda edição sairá em breve. O Direito e a literatura são, parece-me, inseparáveis, na medida em que a literatura trata do ser, cuja existência não prevalece à margem do Direito; Ser e Direito- direito e a correlata obrigação-se implicam.

Elói Alves - escritor; formou-se em Letras pela USP, consultor linguístico e orientador de comunicação verbal de empresas, autores e escritórios advocatícios; revisor de centenas de livros e artigos para editoras e autores;  autor do romance As pílulas do santo Cristo, do livro O olhar de lanceta: ensaios críticos sobre literatura e sociedade, entre outros, Contos humanos; é diretor do Instituto Letrófilo; site: www.escritoreloialves.com.br Email: eloialves75@hotmail.com

Postagens populares (letrófilo 2 anos 22/6)