terça-feira, 17 de junho de 2014

A CONDIÇÃO DE UM MORIBUNDO


Hoje fui ver o vizinho moribundo

Não sei se me notou

Entrei no quarto sozinho

Olhei-o por um tempo

Para ele talvez um tempo inútil

Para mim uma eternidade triste e impotente


Perguntei como se sentia

Não disse nada

Os olhos embranquecidos e aguados

A cabeça imóvel virada para o teto

Pode ser que não se sentisse

E sequer pudesse me ouvir


Aproximei mais e apalpei-o de leve

Apertei-o

Estava duro como cimento envelhecido

A pele gasta e ressequida cobria-lhe os ossos salientes



Depois de uma contemplação extensa

Me virei e sai calado

Era a extensão de minha comunicação com ele


Na saída, que dava para uma viela suja e estreita

Tropecei e pisei o rabo de um vira-lata que fugiu

Na rua uma algazarra febril festejava um jogo

Entrei em casa ainda roendo o meu silêncio frio
 
Elói Alves


Primeiro capítulo do romance As pílulas do santo Cristo:


segunda-feira, 16 de junho de 2014

O ROUBO DO DOUTOR

O doutor foi assaltado no meio da rua

Bateram-lhe a carteira entre os passantes

Houve muita gritaria

-Peguem o ladrão!

Era um pirralho drogado que dormia à porta da Prefeitura

Agarraram-no depressa, mas ele se escapou
 
E pulou do alto do viaduto e espedaçou-se no chão

-Coitado! – disse o dr. -Porque não o deixaram ir?

Elói Alves


Primeiro capítulo do romance As pílulas do santo Cristo:


PANACEIA DE CINZAS


Há uma convulsão nervosa que sobe da terra

As energias gastam-se como fumaça espessa

As emoções assentam-se como pó

Espalham-se ao chão rastros iguais a víboras

A dissipação se incha como epidemia

Os homens no centro da confusão



Uma voz cansada balbucia um “que pena!”

Como elogio fúnebre que não chega à lamentação

E no subsolo gemidos espremidos abortam-se

Dores diluídas na taça da desilusão



Compõe-se ao fim uma panaceia

Como desejo último de emersão

Caldo sulfúreo em que se diluem cinzas

Dos seres que se desmancham no reino da confusão
 
Elói Alves
 
 
Primeiro capítulo do romance As pílulas do santo Cristo:


domingo, 15 de junho de 2014

PASSAGEM

Há algo de etéreo entre o fenecer das flores

No instante vital da beleza que murcha

Que evoca a essência de um explendor que se foi



O ancião já trilhou pela era eufórica

(é próprios das épocas a sucessão de tons)

Calmamente, põe os pés sobre um ocaso sutil

Conhece bem as estações e os tempos

E não se agita com a mutação



À memória alada, alimenta a seiva dos dias que chegam

À indiferença do novo, mantém-se sem tremor

Consciente de que a hora dele também chegará
 
Elói Alves
 

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ACÚMULO


Há algo que procuro mas sequer sei o que é

Sinto falta apenas, a todo instante

Volto ao mesmo ponto e deste vou a outros

Num rodar inútil e ébrio de insano



O que será de que tanto tenho falta?

Saio convicto de que agora dará certo

Compro tanta coisa que pareço estar repleto

Confiro, conto e amontôo, mas ainda falta algo



O que será?

Talvez o mundo ainda não esteja completo

É preciso mais e ainda mais um tanto



É preciso correr e amontoar

É preciso trazer e acumular

É preciso ter e reter em abundância



É preciso preencher todos os espaços

Fechar todas as portas e janelas

É preciso fechar-se a si mesmo

Juntamente com tudo que ajuntamos

E morrer sufocado e sem socorro
 
Elói Alves
 

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sábado, 14 de junho de 2014

A MENINA DESPERTA


Ao acordar a menina vai à janela e a abre lentamente

Apenas uma luz opaca ilumina

O vento frio bate-lhe de cheio no rosto

Ela o recebe como um bom sinal

Depois sorri e prende os cabelos esvoaçados


A rua está molhada e o cheiro do sereno revoa

Do outro lado, as casas estão fechadas

Parece que tudo se retrai

Mesmo as raquíticas flores dos jardins recolhem-se

E, como uma pássaro, a menina se põe a cantar
 
Elói Alves
 

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

PASSANDO POR DRUMMOND E RENATO RUSSO

Mundo, mundo...
Eu também não tenho uma solução

Mas a pergunta é férrea, corrosiva
Não quer parar antes que toque o fundo
Cortando sempre por dentro
Muito além das partes ocas
Desnudando sempre a contra-gosto
Parte sob parte
Devolvendo sempre a pergunta
Que país é este?
Elói Alves

 
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quinta-feira, 12 de junho de 2014

OH, MEU BRASIL

Quando foste achado e conquistado
Por espada e cruz dos lusitanos,
Repletos e em perfeito estado
Estavam tua flora fauna e tantos.

Num átimo, tua riqueza foi levada,
Primeiro a madeira de teu nome,
Depois o teu ouro e tua prata
E com quase tudo teu o luso some.

Com um mártir na história,
Impérios luxo e muita fome
E a escravidão tão vexatória,
Esse teu passado me consome!

Liberdade, presidencialismo esperança,
Vem o sonho, sempre com a utopia;
E a república do café com leite avança,
Mas acaba, porque Getúlio aí surgia.

Por um tempo ideais e otimismo,
Todo o povo trabalha com euforia,
E o governo se fixou com o populismo,
Mas era ditadura e renuncia.

Em teus quinhentos anos lembro Caminha,
Aqui “em se plantando tudo dá”;
Entretanto para grande tristeza minha,
Corrupção e ignorância são o quê há!



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