Os canibais ainda espalham-se pela terra
Andam vorazes a caçar os seus iguais
Para comê-los friamente, sem banquete
E aos pedaços, ampliando a humilhação
Não comem seres fortes cuja caça exija luta
Onde a peleja incerta lhes ofereça perigo
Nem enfrentam guerreiros como os selvagens antigos
Querem os fracos, alquebrados por suas sutilezas
Seu canibalismo não é pagão ou antiquado
Traz todas as invenções e moral de sua época
É benfazejo na aparência e comedido nas maneiras
Traz a elegância que agrada e os gestos que convêm
Os que comem seus iguais valem-se de artifícios
São muito hábeis com as ferramentas e armadilhas
E não abrem mão de disfarces e enfeites
Escondem tão bem suas garras que são reverenciados
Mas eles comem, devorando tudo o que podem
Tirando a vida, começando pelo sangue
Engordando a si com a substância de outrem
Aumentando seus dias, diminuindo o dos outros
-Não comeremos mais as ervas- jura um canibal
E todos o louvam pelo bem que quer ao mundo
Às aves, à terra e à vida oceânica
À sua conferência aplaudem milhões de vítimas
Os canibais preservam a semelhança com outros homens
No entanto, o fazem mais por estratégia
Há muito tempo deixaram de ser humanos
Roeram até os sentimentos que os ligavam à espécie
São férreos por dentro e petróleo corre em sua veias
O coração bate a moda das metralhadoras
Sua audição se deleita com os sons dos níqueis
E o faro se apura pelas essências mais caras
Os canibais não engordam, incham
O que ajuntam não produz riqueza, mas hipertrofia
Seus acúmulos causam bolhas que sempre explodem
inflamando suas úlceras e causando mortes
Não há contra-veneno para seus males
Seus feitos alastram-se em pandemias,
Seu efeito específico é bestializar o mundo
Tornando-o superficial e tragável
Não votam amor à arte, senão por algum pretexto
Nada que se volte ao ser pode lhes causar interesse
Só a querem quando a transformam em coisa bruta
Quado deixe de tocar o íntimo da própria alma
Elói Alves
do livro Sob um céu cinzento
Leia o primeiro capítulo de As pílulas
do Santo Cristo romance de Eloi
Alves:
http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/10/as-pilulas-do-santo-cristo-1-capitulo.html
Abaixo, pode-se ler também o prefácio feito pelo
escritor e mestre em Literautra Comparada pela FFLCH-USP prof. Edu Moreira:
http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/11/prefacio-de-as-pilulas-do-santo-cristo.html
Adquirir o
livro:http://realcomarte.blogspot.com.br/p/as-pilulas-do-santo-cristo-adquiri.html
domingo, 29 de julho de 2012
QUEM PEGA O OURO E QUEM LEVA FERRO? Perguntero
A briga entre os poderosos pela audiência não pára. A globo, que sempre comprou tudo, agora tem que ver os jogos olímpicos pela Record. E os Marinhos- sempre poderosos, comendo nos banquetes dos poderosos- agora vêem os líderes da Igreja da Record com a presidente Dilma inaugurando obras para 2016. A questão que se impõe é quem pega o ouro e quem leva ferro? E não só nas olimpíadas. Em todo canto, o brasileiro leva é ferro e os poderosos ficam com o ouro. Ah, e os telespectadores podem também assistir e bater palmas. Há aí outro programa? Ia me esquecendo, no shopping, levaram ouro de uma joalheria, mas já foram presos. Mas será que pegaram o ouro?
Zé Nefasto Perguntero
Zé Nefasto Perguntero
sábado, 28 de julho de 2012
O GALO E O FESTIM DOS HOMENS
Há um festim lá fora, borbulhando
Ouço os homens a esboçar contentamento
Entoam glórias e adornam o exterior
À minha porta, canta um galo desorientado
-Acalme-se, galináceo- digo baixinho
Amanhã tudo estará como sempre
A celebração é uma festa exígua que não dura
Sua fuga não desvia-nos do nada
-Durma tranqüilo esta noite
E volte a me despertar amanhã
Seu canto será sempre o marcador dos tempos
Entre os quais os homens vacilam e se negam
Elói Alves
Ouço os homens a esboçar contentamento
Entoam glórias e adornam o exterior
À minha porta, canta um galo desorientado
-Acalme-se, galináceo- digo baixinho
Amanhã tudo estará como sempre
A celebração é uma festa exígua que não dura
Sua fuga não desvia-nos do nada
-Durma tranqüilo esta noite
E volte a me despertar amanhã
Seu canto será sempre o marcador dos tempos
Entre os quais os homens vacilam e se negam
Elói Alves
sexta-feira, 27 de julho de 2012
O HOMEM E OS DIAS
Hoje cedo protegi-me da chuva à porta de uma igreja
E uma voz rouca e cansada soava tristonha:
-Senhor, ponho esta semana nas tuas mãos...
Fiz muita fé com ela e fui desejando ao meu modo
Que os meses e os anos também estivessem seguros
E as décadas de quem as alcançar
Porque os dias são lisos como o azeite
Escapam pelas brechas de minhas mãos
Sem que haja força de homem que os sustenha
Elói Alves
E uma voz rouca e cansada soava tristonha:
-Senhor, ponho esta semana nas tuas mãos...
Fiz muita fé com ela e fui desejando ao meu modo
Que os meses e os anos também estivessem seguros
E as décadas de quem as alcançar
Porque os dias são lisos como o azeite
Escapam pelas brechas de minhas mãos
Sem que haja força de homem que os sustenha
Elói Alves
quarta-feira, 25 de julho de 2012
O ENIGMA DAS PALAVRAS
Quem penetra o mundo das palavras
Que se concentre e desconfie, prevendo o perigo
A cada canto fervilham segredos e armadilhas
Paragens abismais, ocultas por águas mornas
Há garras feias que assustam e nada fazem
E outras que ferem ao fundo e mortalmente
Que diluem a dor e deixam a ferida intacta
E escondem-se com maneiras discretas
Depois, os recantos onde pairam os bálsamos
Em que se banha quem conhece seus caminhos
E aprecia as formas sutis de seus deleites
Mas seus acessos não são francos ou sem riscos
Seus enigmas buscam a entrega, de corpo e alma
Eles não se revelam a quem não traz disposição
Ou guarda empatia com a pressa e a insensibilidade
Querem seres despidos e dispostos a mergulhos profundos
Elói Alves
Conheça e adquira os livros do autor
http://realcomarte.blogspot.com.br/p/as-pilulas-do-santo-cristo-adquiri.html
Leia o primeiro capítulo do romance As pílulas do Santo Cristo
:http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/10/as-pilulas-do-santo-cristo-1-capitulo.html
Que se concentre e desconfie, prevendo o perigo
A cada canto fervilham segredos e armadilhas
Paragens abismais, ocultas por águas mornas
Há garras feias que assustam e nada fazem
E outras que ferem ao fundo e mortalmente
Que diluem a dor e deixam a ferida intacta
E escondem-se com maneiras discretas
Depois, os recantos onde pairam os bálsamos
Em que se banha quem conhece seus caminhos
E aprecia as formas sutis de seus deleites
Mas seus acessos não são francos ou sem riscos
Seus enigmas buscam a entrega, de corpo e alma
Eles não se revelam a quem não traz disposição
Ou guarda empatia com a pressa e a insensibilidade
Querem seres despidos e dispostos a mergulhos profundos
Elói Alves
Conheça e adquira os livros do autor
http://realcomarte.blogspot.com.br/p/as-pilulas-do-santo-cristo-adquiri.html
Leia o primeiro capítulo do romance As pílulas do Santo Cristo
:http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/10/as-pilulas-do-santo-cristo-1-capitulo.html
domingo, 22 de julho de 2012
INSTANTE DE ETERNIDADE
Meu oceano é um fiapo d'água intermitente
Lá e cá ondulam e desfazem-se pequenas bolhas
Quando sol o aquece, sinto uma leve ternura
Mas logo passa, levando os raios que me distraem
Queria o sol aqui por mais um tempo
Temperando a minha vida gelada
Despertando meus olhos com suas cores
Afugentando o clima indolente
Não é certo que retorne pela manhã
Mas esperarei, embora a noite seja longa e fria
E se a suportar, darei a esse instante a eternidade
Elói Alves
Lá e cá ondulam e desfazem-se pequenas bolhas
Quando sol o aquece, sinto uma leve ternura
Mas logo passa, levando os raios que me distraem
Queria o sol aqui por mais um tempo
Temperando a minha vida gelada
Despertando meus olhos com suas cores
Afugentando o clima indolente
Não é certo que retorne pela manhã
Mas esperarei, embora a noite seja longa e fria
E se a suportar, darei a esse instante a eternidade
Elói Alves
CARLA ZANETH: ACROBACIAS AÉREAS
Carla Zaneth é uma atriz cuja dedicação à arte não tem limite. É realmente impressionante vê-la atuando. Seu desempenho aparentemente tranqüilo e feliz exige dela um apuro técnico de nível elevadíssimo e- acho eu- muita coragem. Conheci-a em uma de minhas andanças pela cidade de São Paulo e ela, extremamente gentil, se dispôs falar e apresentar-se para fotos do blog. Carla estudou no Rio de Janeiro e é acrobata, bailarina e já atuou em teatros e circos. Nas fotos, ela aparece em acrobacias aéreas com tecido.
Veja outras imagens dela em IMAGENS DA CIDADE, no link na parte superior da página.
Elói Alves
TIO GERBÚLIO ATACA DE ROMÂNTICO
No domingo, depois da missa, tio Gerbúlio disse para a mulher, à porta da igreja:
-Vai aprontando o almoço, que vou dar uma volta com o menino.
Dona Prudência rumou para casa com os vizinhos, que iam descendo, e o marido entrou pela rua da feira com o Gerbulinho.
O menino, aos seis anos, já dava mostras que seria bom de garfo como o pai. Na barraca do japonês, comeram cada um dois pasteis e tomaram caldo de cana. Quando tio Gerbúlio o chamou para ir andando, ele falou, decidido:
-Espera, pai, agora quero mais um de carne.
-Vai comer mesmo? Olha que em casa vai ter que almoçar, senão sua mãe me mata.
-Almoço sim, pai. Não almocei no domingo passado?
E era verdade. Na semana anterior, a mesma cena já havia se passado.
Os dois caminharam ainda olhando as barracas. Tio Gerbúlio tinha comprado algumas frutas, que gostava de ter em casa. Já no fim da feira, lembrou-se da barraca de doces. Foi até lá e comprou um pote de marmelada. Era um mimo para agradar a mulher.
Na entrada de casa, separou a marmelada das frutas e disse:
-Trouxe um docinho da feira pra você, meu bem. Tá uma delícia, quase igual a doçura do teu beijo!
Dona Prudência, que não gostava muito das prosas do marido, respondeu de dentro:
-Traz logo esse doce pra eu comer um pedaço, homem! E vê se larga de bestagem!
Jão Gerbulius Sobrinho
(Este texto faz parte das histórias do tio Gerbúlio)
-Vai aprontando o almoço, que vou dar uma volta com o menino.
Dona Prudência rumou para casa com os vizinhos, que iam descendo, e o marido entrou pela rua da feira com o Gerbulinho.
O menino, aos seis anos, já dava mostras que seria bom de garfo como o pai. Na barraca do japonês, comeram cada um dois pasteis e tomaram caldo de cana. Quando tio Gerbúlio o chamou para ir andando, ele falou, decidido:
-Espera, pai, agora quero mais um de carne.
-Vai comer mesmo? Olha que em casa vai ter que almoçar, senão sua mãe me mata.
-Almoço sim, pai. Não almocei no domingo passado?
E era verdade. Na semana anterior, a mesma cena já havia se passado.
Os dois caminharam ainda olhando as barracas. Tio Gerbúlio tinha comprado algumas frutas, que gostava de ter em casa. Já no fim da feira, lembrou-se da barraca de doces. Foi até lá e comprou um pote de marmelada. Era um mimo para agradar a mulher.
Na entrada de casa, separou a marmelada das frutas e disse:
-Trouxe um docinho da feira pra você, meu bem. Tá uma delícia, quase igual a doçura do teu beijo!
Dona Prudência, que não gostava muito das prosas do marido, respondeu de dentro:
-Traz logo esse doce pra eu comer um pedaço, homem! E vê se larga de bestagem!
Jão Gerbulius Sobrinho
(Este texto faz parte das histórias do tio Gerbúlio)
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