segunda-feira, 7 de maio de 2012

A MUDANÇA DE TEOFASTO

        Teofasto andava solitário há dias. Foi até a biblioteca para espairecer um pouco. Devolveu às estantes vários livros, mesmo sem abri-los. Ou as cores o desagradavam mais que os títulos, ou, antes, estes lhe interessavam menos ainda. Até que achou um cujo autor era um digno estranho, começando pelo nome que tinha mais consoantes que o seu idioma. Realmete uma palavra impronunciável. O título, então, convidou-o mais, oferecendo-lhe uma infinita liberdade estampada. Gostou! Segurou-o firme e foi sentar-se longe de todos os outros leitores e consulentes para penetrá-lo mais.
         Pulou a biografia e a introdução e foi à primeira parte, onde leu encantado: “Mude e mude-se! Você, se quiser, poderá mudar até o mundo. Comece mudando o que há de mais comum em você. Mude a roupa! mude a comida! Mude os hábitos! Faça coisas diferentes. Viva os dias de um modo diferente! Faça que cada dia seja diferente! Troque o que há de comum em cada dia! Troque-o pela noite! Troque seus horários! Troque a noite pelo dia e quando perceber, sua vida já estará mudada”
         Soltou o livro sobre a mesa e levantou-se decidido a mudar tudo, radicalmente. Mudar a sua própria vida. Saiu da biblioteca às pressas pela porta de entrada, ignorando as chamadas do guarda. Chegou em casa e foi direto ao chuveiro, decidido a tomar banho frio, mesmo com a baixíssima temperatura que trazia aquele dia de inverno. Esvaziou o guarda-roupa para procurar uma peça diferente. Mas tudo lhe parecia velho demais para sugerir uma mudança. Resolveu correr para comprar roupas novas, antes que as lojas se fechassem, naquela noite gelada.
          Saiu da garagem mais rápido que de costume, como se estivesse realmente mudando de hábitos. E, seja como for, não colocou o cinto de segurança. Decidiu mudar de faixa rapidamente, para não precisar reduzir a velocidade e bateu no carro de polícia. Foi socorrido desacordado ao hospital, onde voltou a abrir os olhos dias depois, enfaixado e vestido com uma roupa estranhamente diferente.
Elói Alves
Prefácio de As pílulas do do Santo Cristo, romance de Elói Alves:


Primeito capítulo:


Segundo Capítulo:

domingo, 6 de maio de 2012

NO IRAQUE, CRIANÇAS NASCEM DEFORMADAS DEVIDO A USO DE ARMAS QUÍMICAS PELOS EUA

Segundo reportagem do canal RT, as crianças nascidas na cidade de Fallujah, no Iraque, têm seus corpos deformados geneticamente, após vários bombardeios americanos à cidade, que era um dos focos da resistência iraquiana às tropas americanas. Algumas dessas crianças sobrevivem apenas algumas horas após o nascimento. Segundo vários relatos mostrados na reportagem veiculada na rede de televisão internacional RT, há evidencias do uso de armas químicas altamente letais, como fósforo branco e urânio empobrecido, ambos proibidos pelas leis internacionais que regulam os crimes de guerra, como a Convenção de Haia e dos protocolos de Genebra. A reportagem mostra também soldados americanos que estiveram em combate no Iraque e mostram problemas de saúde, como a presença de tumores na cabeça devido a resíduos de armas químicas, embora o governo americano negue enfaticamente o uso dessas armas proibidas. A reportegem está no canal da RT em seu portal www.actualidad.rt.com
Elói Alves

sábado, 28 de abril de 2012

MOÇA TRISTE

A moça cruza diagonalmente a praça
Seus passos tristes ignoram os sinos
A catedral, de onde, firme, o som se alça
De nada lhe advém quaisquer signos

Olhares másculos perscrutam seus olhos
E passam, lentamente, em mira inútil
Dispersando ao vento inflamáveis óleos
E ela continua em caminho dúbio...

Sonora, surge a banda, e ela se retrái
No viaduto, como se olhasse ao longe...
Um pássaro pousa e canta e voa e se vai
E ela segue intranspassável como bronze

Elói Alves


Leia o primeiro capítulo de As pílulas do Santo Cristo romance de Eloi Alves:
http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/10/as-pilulas-do-santo-cristo-1-capitulo.html
Abaixo, pode-se ler também o prefácio feito pelo escritor e mestre em Literautra Comparada pela FFLCH-USP prof. Edu Moreira: http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/11/prefacio-de-as-pilulas-do-santo-cristo.html

terça-feira, 17 de abril de 2012

JULIAN ASSANGE, FUNDADOR DO WIKILEAKS, ESTRÉIA COMO ENTREVISTADOR

O polêmico fundador do site wikileaks, o australiano Julian Assange, escolheu o canal russo RT (Russia Today, Rússia hoje) para comandar um programa de entrevista, chamado, em espanhol, "El mundo del mañana", que pode ser visto em www.actualidad.rt.com . Assange, que recebe convidados em sua casa, na Inglaterra, onde cumpre prisão domiciliar, teve como primeiro entrevistado, bem ao seu estilo, Sayed Hasan Nashalá, líder do grupo extremista libanês Hezbolá, combatido por Israel, Estados Unidos e seus aliados na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
O agora entrevistador Assange se tornou uma das figuras centrais de política internacional nos últimos anos por tornar público, por meio de seu portal na web, milhares de páginas contendo documentos secretos da diplomacia americana.
Bem ao estilo de contestador das políticas imperialistas ocidentais, Assange iniciou seu programa de entrevista pondo mais combustível fóssil no ambiente de política internacional (Já conturbado com a questão do Irã) ao dar a palavra ao líder do Hezbolá. A grande diferença agora é que o fundador do Wikileaks tem em mãos um microfone forte, de amplo alcance na sociedade ocidental através de suas versões em inglês e espanhol, sobretudo junto àqueles que não estão sob a influência dos veículos de opinião a favor dos Estados Unidos.
Pelo típico início, quem serão os próximos entrevistados?

Elói Alves do Nascimento

quarta-feira, 4 de abril de 2012

DECLARAÇÃO DE BENS

       Meus caros,

       Este governo, como o faz sistematicamente, cobrou-me neste mês, com seu conveniente eufemismo de “contribuinte”, a relação de tudo o que possuo, para o poder tributar- não bastassem-me os roementos de minhas moedas pelos dentes malignos da inflação e de outros amigos seus, forjados por gatilhos vários.
       E como seus métodos são públicos, reciprocamente, darei a todos a publicidade de minhas posses, em ampla contabilidade, começando por dizer que bens maiores não os tenho que um resumido e apreciável punhado de amigos.
       Devo declarar também que, neste último ano, este grato punhado de companheiros teve seus juros, acrescendo-se-lhe uns 10% (perdoai a imprecisão de meus cálculos, eminentes autoridades econômicas).
       Porém, pouco crescecu o número, e é verificável, e sim mais o peso- devo alertar que nem tanto pelo que, juntos, repartimos e comemos, mas, muito mais, pelo que bebemos.
       Relato também que, devido à baixa de seus preços, toda a turma agora está em perfeita e jubilosa posse de dentaduras; principalmente Zebebeu que dispendeu-se de seu último e dianteiro dente, com o qual abria nossas garrafas- uma registrável e objetiva perda ao tilintar da hora.
        Também acresceu-se a alegria de nossos amigos, refletida nos altos índices de seus mútuos elogios e composições incontáveis de alegres e incontabizáveis cantorias noturnas e madrugadescas, e a elevada ampliação no número de abraços fraternos e até chorosos.
         Também houve diversificação nos ingeridos, devido aos esforços do governo junto ao pró-álcool e à concorrência entre os derivados da cana-de-açúcar, refletida na queda dos respectivos preços, produzindo reaquecimento na área que andava em baixa (o que alavancou a produção das indústrias de canecos e garrafas e um levantamento nas de copos, reintroduzindo no mercado uma parte da mão-de-obra que andava ociosa e fria, inserida em atividades informais não-registráveis).
          Houve ainda alta no valor do fator segurança, fornecida por Suzi, tornando-se sempre mais protetora e matriarcal- comparativo ao setor de segurança patrimonial. Na verdade, ela tem refletido um decréscimo na quantidadde de seus pelos e também perdeu, no último trimesntre, competitividade nas disputas pelos lixos, mesmo com a escalada destes e seu olfativo aumento.
          Só a poupança frustrou as estimativas e manteve baixa aderência aos investimentos com pouca atratividade, devido às ações pouco competitivas, motivadas pela queda nos espetáculos e do excesso de espectativa no crescimento líquido corrente, provocando um círculo vicioso devido à carência de demanda e aos depósitos compusórios feitos nos cofres do banco central.
          Bem, exceto o exposto, nada mais tenho a ser tributado, mas sempre é possível que eu venha a cair na malha fina, pela via de sinuoso equívoco, e fique sem reaver minha liquidez retida na fonte.
Declarante: João do Caminho
CPF: 5.151.515.151-LI
Restituição: Banco: Malt - Agência 090
Contador Elói Alves do Nascimento
 Leia o primeiro capítulo de As pílulas do Santo Cristo romance de minha autoria
http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/10/as-pilulas-do-santo-cristo-1-capitulo.html

Abaixo, pode-se ler também o prefácio feito pelo escritor e mestre em Literautra Comparada pela FFLCH-USP Edu Moreira: http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/11/prefacio-de-as-pilulas-do-santo-cristo.html

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A CASA DE PEDRA

        Quem casa, quer casa- diz o povo; mas não o dizia Joaninha.
Ela queria, a um tempo, o perfume das flores, os raios do sol espargidos em seu rosto e a beleza da lua, toda repleta de muitos cavalos para as cavalgadas de São Jorge.
        Jorge, porém, não era poeta. Era pedreiro apenas. Não entendia a linguagem nem notava os perfumes das flores, nem os seus olhos iam muito ao alto e ao longe a encontrar as estrelas.
        Deu-lha- simplesmenre- uma casa feita com pedras talhadas por suas mãos ásperas. Mas Joaninha encantou-se pouco e foi à janela olhar o arcoíres que se formava ao parar da chuva, que alvejara o horizonte e lhe devolvera o lindo azul ao céu.
        Ao pé da obra, Jorge encontrou Teodésia, que vendia doces-cor-de-terra, duros como as pedras que ele talhava.
Depois de uns dias, Teodésia aceitou-lhe o braço e guardou a chave fria sob a blusa, apertando-a contra os peitos rijos.
        Joaninha foi perdendo o gosto das flores aos poucos e deixou de apreciar a cor das estrelas e desimportou-se com as montarias do cavaleiro lunar e mudou-se, também, de casa.
       Na rua, viram-na pela última vez quando a levaram para a Casa de Insanos, onde foi recebida, à porta, pelo sábio doutor Bacamarte.
Elói Alves
Prefácio de As pílulas do do Santo Cristo, romance de Elói Alves:




Primeito capítulo:




Segundo Capítulo:


domingo, 1 de abril de 2012

UM INGLÊS PEDINTE NO CENTRO DE SÃO PAULO

      Às oito horas da noite, deste domingo, saí de casa na Líbero Badaró, próximo à Prefeitura, e, atravessando a praça do Patriarca, fui em direção ao Centro Cultural do Banco do Brasil, entrando pela rua da Quitanda.
      Domingo à noite a cidade está vazia, geralmente. Na praça, dois ou três homens desmontavam um palco; mais à frente, um mendigo remexia uns lixos. Um homem com sacolas ia vagaroso no meu caminho, firmei os passos e peguei distância. Cresci andando por essas ruas e aprendi suas estratégias. Comecei a conhecê-las entregando lanches e me perdendo por elas. Aos catorze, havia “ascendido” a office boy registrado, numa agência de viagens, cheia de estrangeiros, e continuei a frequentá-las como agora.
Ia sozinho, já quase no cruzamento da rua da Quitanda com a Álvares Penteado, quando uma bicicleta surgiu do nada, vindo em minha direção. Recompus o olhar, o corpo e esperei, sem diminuir o ritmo. Emparelhou-se, logo, guardando a distância que eu ia mantendo.
      O homem teria uns quarenta anos, não mais, acho. Estava sujo nas roupas e com os loiros cabelos despenteados na mesma ausência de limpeza. E como parecia um pouco enrolado, com minha cautela ou outra coisa, adiantei-me, firme:
     -Pois, não?
     -Sou inglês_ disse em português e emendou em sua língua, Do you speak English?*
     -Bad, ** respondi, e ele se riu um pouco.
     Sempre dei essa mesma resposta a todos os ingleses e americanos, mormons e outros, que fui encontrando desde moleque pelas ruas de São Paulo e que me peguntavam se falava inglês. A princípo, por não saber realmente aquele idioma, depois porque percebi que a resposta bastava. E eles sempre riam, como agora este da bicicleta.
     Pediu-me dinheiro, em fim, para comprar uma marmitex, e disse-lhe, guardando a distância e com a mesma frieza dos ingleses:
     -I don`t have money ***.
     Ele deu-me o seu “thanks”, e foi em direção à praça da Sé, enfiando-se pela rua XV de Novembro em velocidade tal que logo o perdi.
     Este britânico fez-me mergulhar no tempo e ir ter com um outro, que fora casado por uns anos com a dona da agência que referi acima. Teria uns cinquenta anos, hoje, um pouco mais até. Pode ser que apenas se pareçam ambos, como aos meus olhos são iguais os japoneses, mas quem pode duvidar do elevador da vida capitalista?
Elói Alves

* Você fala Inglês?
** Mal (ou "badly", advérbio, de um modo ruim)
*** Não tenho dinheiro

 Leia o primeiro capítulo de As pílulas do Santo Cristohttp://realcomarte.blogspot.com.br/2012/10/as-pilulas-do-santo-cristo-1-capitulo.html
Abaixo, pode-se ler também o prefácio feito pelo escritor e mestre em Literautra Comparada pela FFLCH-USP Edu Moreira:

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