terça-feira, 25 de outubro de 2011

SOL SOB A MULHER

O sol se punha de um modo todo etéreo,
Seus raios se espargiam, penetrando a noite
Eu, cá embaixo, transpassado de uma foice
Do amor dela – impassível, e ele, esmero.

Cabelo ao vento, sobre os ombros repartido,
Lembrou-me Helena e toda a Grécia a buscá-la
Em gerra à Troia pela beleza que roubara,
Passos de deusa, fina leveza no vestido.

Olhei o sol, já estendido, abraçando o poente,
Destilando raios sobre ela ainda dourados,
Tudo ao dispor de um homem apaixonado;

Serena e firme, musa daquele espetáculo,
Ela ocultou todos raios de sol a minha frente,
E foi seguindo com os perfumes e o toucado.

Elói Alves

domingo, 23 de outubro de 2011

O SONO E O MUNDO

Neste domingo acordei cedo. Mas ignorei o mundo, que me chamava, dando-lhe de ombros, e reentrei no mundo do sono mansamente, para não despertá-lo.
O sono é muito sensível como os homens e como as crianças. Às vezes fica de mal e some. Às vezes simplesmente não comparece ao encontro, como esperado.
Outras vezes ele aparece e, não encontrando ninguém no local marcado, à hora costumeira, vai-se por seu caminho, sozinho.
Mas às vezes ele nos pega à força, fazendo-nos submissos, como bonecas de pano, sem lhe importar o local ou os cúmplices, e nem mesmo outros implicados.
O sono quando contrariado veste-se com sua capa de soberano, pega seu controle do mundo, encapado como dócil cajado de condução de ovelhas e sai a vingar-se pelas entrâncias do mundo.
Mas ele odeia os ditadores baixos e não permite confundir-se com eles. Também rejeita a idolatria basbaque e ingênua, ignorando os sonólatras que se estendem pela estrada. A idolatria possui classes e subclasses. Ele as rejeita a todas. Ele age sempre ao seu modo, como soberano pacífico e indiferente ou como usurpador de entranhas e víceras.
O sono irado é como Posseidon, o sacudidor dos mares e da terra. Mas é também piedoso ao seu modo, não permitindo que as vítimas de sua ira o vejam agindo. Faz tudo na inconsciência absoluta.
Por isso, fui mansamente, deixando me levar junto às águas amenas e sossegadas, num acordo tácito com o sono. Fiz uma viagem tranquila, saborosa e, além do mais, restauradora.
Mas foi preciso ignorar o mundo.

Elói Alves do Nascimento

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